Te conto aqui o meu miniconto.
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Ela olhou para a cachoeira e perguntou:
- O que eu faço?
A cachoeira, vertical, respondeu:
- Nada.
domingo, 5 de julho de 2009
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
Cabelos vermelhos
Eu achei que pintando meu cabelo fosse me sentir mais feliz. Não fui ingênua a ponto de achar que uma coloração capilar fosse me deixar em estado de êxtase, mas sinceramente esperava sentir no coração algum tipo de felicidade. No mínimo um contentamento, como aquele que sinto ao terminar um livro de 800 páginas cujo autor o tempo todo insiste em escrever na ordem indireta.
Fiquei ruiva, mas não fiquei mais feliz.
Segundo minha mãe, isso mostra que sou uma pessoa que pouco liga para as aparências e que me preencho com questões mais profundas que as mundanas alterações estéticas femininas. (E que usa muitos quês numa mesma frase, diga-se de passagem) Argumento pretensioso, mas que me agradou muito. (Ops, mais um que)
Segundo minha voz interior, isso significa que não gostei tanto assim do resultado. Vozinha chata essa, que não sai da cabeça e não perdoa nenhuma relutância. Eu gostei sim do resultado. In fact, amei! Agora sou uma menina vermelinha, que no sol tem o cabelo da cor de cerejas escuras.
Segundo este texto, isso significa que ainda não decidi como me sinto a respeito dos meus novos cachos vermelhos.
Mas como toda boa indecisa, não usei tinta.
Pedi para a moça do salão usar tonalizante.
Eu sempre dou um jeitinho de voltar atrás!
Fiquei ruiva, mas não fiquei mais feliz.
Segundo minha mãe, isso mostra que sou uma pessoa que pouco liga para as aparências e que me preencho com questões mais profundas que as mundanas alterações estéticas femininas. (E que usa muitos quês numa mesma frase, diga-se de passagem) Argumento pretensioso, mas que me agradou muito. (Ops, mais um que)
Segundo minha voz interior, isso significa que não gostei tanto assim do resultado. Vozinha chata essa, que não sai da cabeça e não perdoa nenhuma relutância. Eu gostei sim do resultado. In fact, amei! Agora sou uma menina vermelinha, que no sol tem o cabelo da cor de cerejas escuras.
Segundo este texto, isso significa que ainda não decidi como me sinto a respeito dos meus novos cachos vermelhos.
Mas como toda boa indecisa, não usei tinta.
Pedi para a moça do salão usar tonalizante.
Eu sempre dou um jeitinho de voltar atrás!
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Muito nova para morrer
Sempre tive a impressão de que morreria cedo. Ao guardar pequenas coisas em minha gaveta, tinha a sensação de alimentar uma caixinha de Pandora a ser aberta por minha mãe, em uma chorosa tarde de domingo quando eu já não estivesse mais aqui.
Na gaveta, nada muito comprometedor. Uma conta de celular que esqueci de pagar, um maço de cigarros de menta que gostava de fumar aos domingos à tarde, um ticket do restaurante onde fui pela última vez com um namoradinho que estava começando a me encantar de verdade.
Segredos, segredinhos diria agora que a impressão virou realidade.
Eu morri aos 21 anos, logo depois de terminar Dom Casmurro pela terceira vez. Com certeza foi minha obstinação por essa obra prima da psicanálise literária que assinou a minha sentença de morte. “Essa guria já leu Machado de Assis demais para uma encarnação só”, pensou Deus ao enviar a Dona Morte para me buscar.
Confesso que não me surpreendi quando abri os olhos e a vi sentada na poltrona do meu quarto, como quem admira um amante quando este despretenciosamente deixa à mostra o corpo nu.
- Oi.
- Oi.
- Acho que sei quem é você.
- E quem sou eu?
- A Morte.
- Não. Eu sou a Dona Morte, secretária da Morte. Quem me dera ser a Morte! Quisera eu dar fim à vida.
- Tem certeza de que gostaria disso?
- Claro! Você por acaso conhece a Morte para achar que a vida é melhor?
- Não.
- Então não fale com esse tom que me culpa por querer tirar a vida das pessoas.
- Está certo. Como não gosto de falar das coisas sem propriedade, me leve logo. Quero conhecer a tal da Morte.
- Gostei de você, garota! A maioria das pessoas teme a morte. Você, ao contrário, quer conhecê-la para não cometer injustiças aos preferir a vida. Mas sabe, o curioso é que se você conhecer a morte, e mesmo assim preferir a vida, não poderá voltar atrás. O que me diz disso?
- Digo que também é assim com o amor. Depois de conhecê-lo, não há volta. Sobrevivi a ele. Posso sobreviver à Morte.
- Garota, nunca ouvi ninguém falar em sobreviver à Morte.
- É mesmo... Como se possível sair com vida da Morte.
- Eu posso fazer com que você saia com vida da Morte.
- Mesmo? Mas será que eu quero? Você mesma me disse que eu não devia achar a vida melhor que a Morte.
- A vida não é melhor que a Morte, assim como a velhice nunca será melhor que a juventude. É cada coisa à seu tempo...
- E qual é o meu tempo?
- Ele se esgotaria hoje.
- Então a minha impressão...
- Sim, você estava certa.
- Mas porque mudar os planos agora?
- Porque a morte não deve causar curiosidade, mas sim pesar e medo. E para que seja assim, você precisa viver mais alguns anos.
No fundo, sempre tive a impressão de que era muito nova para morrer.
Na gaveta, nada muito comprometedor. Uma conta de celular que esqueci de pagar, um maço de cigarros de menta que gostava de fumar aos domingos à tarde, um ticket do restaurante onde fui pela última vez com um namoradinho que estava começando a me encantar de verdade.
Segredos, segredinhos diria agora que a impressão virou realidade.
Eu morri aos 21 anos, logo depois de terminar Dom Casmurro pela terceira vez. Com certeza foi minha obstinação por essa obra prima da psicanálise literária que assinou a minha sentença de morte. “Essa guria já leu Machado de Assis demais para uma encarnação só”, pensou Deus ao enviar a Dona Morte para me buscar.
Confesso que não me surpreendi quando abri os olhos e a vi sentada na poltrona do meu quarto, como quem admira um amante quando este despretenciosamente deixa à mostra o corpo nu.
- Oi.
- Oi.
- Acho que sei quem é você.
- E quem sou eu?
- A Morte.
- Não. Eu sou a Dona Morte, secretária da Morte. Quem me dera ser a Morte! Quisera eu dar fim à vida.
- Tem certeza de que gostaria disso?
- Claro! Você por acaso conhece a Morte para achar que a vida é melhor?
- Não.
- Então não fale com esse tom que me culpa por querer tirar a vida das pessoas.
- Está certo. Como não gosto de falar das coisas sem propriedade, me leve logo. Quero conhecer a tal da Morte.
- Gostei de você, garota! A maioria das pessoas teme a morte. Você, ao contrário, quer conhecê-la para não cometer injustiças aos preferir a vida. Mas sabe, o curioso é que se você conhecer a morte, e mesmo assim preferir a vida, não poderá voltar atrás. O que me diz disso?
- Digo que também é assim com o amor. Depois de conhecê-lo, não há volta. Sobrevivi a ele. Posso sobreviver à Morte.
- Garota, nunca ouvi ninguém falar em sobreviver à Morte.
- É mesmo... Como se possível sair com vida da Morte.
- Eu posso fazer com que você saia com vida da Morte.
- Mesmo? Mas será que eu quero? Você mesma me disse que eu não devia achar a vida melhor que a Morte.
- A vida não é melhor que a Morte, assim como a velhice nunca será melhor que a juventude. É cada coisa à seu tempo...
- E qual é o meu tempo?
- Ele se esgotaria hoje.
- Então a minha impressão...
- Sim, você estava certa.
- Mas porque mudar os planos agora?
- Porque a morte não deve causar curiosidade, mas sim pesar e medo. E para que seja assim, você precisa viver mais alguns anos.
No fundo, sempre tive a impressão de que era muito nova para morrer.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Quero ser a Francesca, de Rodin
Na próxima encarnação quero ser uma escultura do Rodin. Quero ser le Baiser. E Deus que não ouse me fazer encarnar na réplica feita de argila, um mero estudo que fica exposto ao lado da original.
Quero ser aquela peça branca e enorme, que consome os olhos pela força e delicadeza que encerra em cada um de seus contornos. Mas como sou humilde peço apenas que o rei dos céus me conceda a graça de ser um pedacinho desta obra de arte: ser Francesca já está de ótimo tamanho.
Ser Francesca para passar a próxima vida ao lado de meu amado Paolo. Envolta em seus músculos, não irei conhecer a tristeza. Mesmo de olhos fechados, estarei protegida pela presença de meu amor. Mesmo feita de mármore, estarei sempre aquecida pelos lábios de meu amor.
Ser Francesca para ser observada, admirada, contemplada. Mas para não olhar para ninguém, apenas para meu amado Paolo.
Ser Francesca para me entregar.
E não fazer nada além de amar.
Quero ser aquela peça branca e enorme, que consome os olhos pela força e delicadeza que encerra em cada um de seus contornos. Mas como sou humilde peço apenas que o rei dos céus me conceda a graça de ser um pedacinho desta obra de arte: ser Francesca já está de ótimo tamanho.
Ser Francesca para passar a próxima vida ao lado de meu amado Paolo. Envolta em seus músculos, não irei conhecer a tristeza. Mesmo de olhos fechados, estarei protegida pela presença de meu amor. Mesmo feita de mármore, estarei sempre aquecida pelos lábios de meu amor.
Ser Francesca para ser observada, admirada, contemplada. Mas para não olhar para ninguém, apenas para meu amado Paolo.
Ser Francesca para me entregar.
E não fazer nada além de amar.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
O que toda mulher (esperta) deve saber
Curso em cinco módulos, para você que sabe o que quere da vida.
Módulo 1 – Nem toda menina quer boneca
Nesse módulo, deixe para trás todos os traumas causados pelas mães e tias que a obrigavam a brincar com bonecas idiotas enquanto os meninos se aventuravam pelas ruas, montados em suas turbinadas bicicletas Caloi.
Método: sessões de hipnose seguidas por confecção de bonecas (de vodu). Segundo especialistas, o reencontro com os símbolos dos traumas (as bonecas) é a melhor maneira de buscar uma catarse psicológica.
Módulo 2 - Peitos, para que os quero?
Entenda porque peitos não são tão importantes assim.
Método: análise de comportamento masculino em seu ambiente natural: o boteco da esquina. Na pesquisa de campo será validada a premissa “todo homem quer mesmo é saber do que está abaixo da linha do equador”.
Módulo 3 – Inteligente sim, chata jamais
Nessa etapa, aprenda a importância de demonstrar a sua inteligência sem parecer chata.
Método: Trabalhos em duplas, onde a inteligente aprende a conversar com alguém menos favorecido intelectualmente sem esboçar irritação ou aquela cara blasé típica dos que possuem cérebros afortunados.
Módulo 4 – Se ele é um babaca, mostre uma banana
Depois de entender a sua infância, o seu corpo e a sua mente, está na hora de entender o sexo oposto. Tarefa impossível? Claro que não. Nesse módulo você saberá como identificar um babaca e também como se livrar dele.
Método: Estudo aprofundado da mente masculina com base nos estudos de Freud, cujas teorias se baseiam na verdade mais absoluta de todas: homem com pinto pequeno é uma merda na cama e ainda é um babaca na sociedade.
Módulo 5 – Arrependimento – palavra que não vai mais existir
Última etapa do curso, tem como objetivo marcar o início de uma vida. É hora de deixar para trás todas as mágoas e problemas do passado e pisar fundo no acelerador rumo ao brilhante futuro que a aguarda. E sem levar no bagageiro lembranças ou fantasmas.
Módulo 1 – Nem toda menina quer boneca
Nesse módulo, deixe para trás todos os traumas causados pelas mães e tias que a obrigavam a brincar com bonecas idiotas enquanto os meninos se aventuravam pelas ruas, montados em suas turbinadas bicicletas Caloi.
Método: sessões de hipnose seguidas por confecção de bonecas (de vodu). Segundo especialistas, o reencontro com os símbolos dos traumas (as bonecas) é a melhor maneira de buscar uma catarse psicológica.
Módulo 2 - Peitos, para que os quero?
Entenda porque peitos não são tão importantes assim.
Método: análise de comportamento masculino em seu ambiente natural: o boteco da esquina. Na pesquisa de campo será validada a premissa “todo homem quer mesmo é saber do que está abaixo da linha do equador”.
Módulo 3 – Inteligente sim, chata jamais
Nessa etapa, aprenda a importância de demonstrar a sua inteligência sem parecer chata.
Método: Trabalhos em duplas, onde a inteligente aprende a conversar com alguém menos favorecido intelectualmente sem esboçar irritação ou aquela cara blasé típica dos que possuem cérebros afortunados.
Módulo 4 – Se ele é um babaca, mostre uma banana
Depois de entender a sua infância, o seu corpo e a sua mente, está na hora de entender o sexo oposto. Tarefa impossível? Claro que não. Nesse módulo você saberá como identificar um babaca e também como se livrar dele.
Método: Estudo aprofundado da mente masculina com base nos estudos de Freud, cujas teorias se baseiam na verdade mais absoluta de todas: homem com pinto pequeno é uma merda na cama e ainda é um babaca na sociedade.
Módulo 5 – Arrependimento – palavra que não vai mais existir
Última etapa do curso, tem como objetivo marcar o início de uma vida. É hora de deixar para trás todas as mágoas e problemas do passado e pisar fundo no acelerador rumo ao brilhante futuro que a aguarda. E sem levar no bagageiro lembranças ou fantasmas.
terça-feira, 1 de julho de 2008
Pague para mim
Amelie tinha o namorado perfeito. Perfeição não existe, ela sabe disso. Mas em se tratando do Mr. Small, ela não tinha como pensar diferente. Tinha, verbo ter conjugado no passado. Porque depois da noite de quinta-feira, ela tem. E como tem.
Num acesso de sinceridade, o ex-namorado ex-perfeito contou que durante os três anos de namoro traiu a amada em diversas ocasiões. “Mas muitas vezes?”, perguntou nossa protagonista, em meio a lágrimas. “Sim”, disse o infeliz.
Incapaz de manter o pênis dentro da calça, ele tratou de traçar várias caipiras sempre que pôde. Mas até aí, compreensível. Ele é homem. E todo homem é idiota quando o assunto é sexo. O pior ainda estava por vir.
Depois de ouvir os relatos das ocasiões em que o digníssimo delicadamente enfeitou sua cabeça com um adereço nada fashion (um belo par de chifres), ela fez uma última pergunta. “Só essas vezes?”, questionou. Com medo da resposta, fechou os olhos um pouco antes de ouvir o que segundos depois a deixaria revoltada. “Não, teve também outra vez em que trepei com uma puta”, respondeu o safado.
“Mas eu não entendo”, choramingou ela. Bom, Amelie, eu também não entendo. Não entendo porque ele não pagou para você o dinheiro que gastou com a puta. Tão mais fácil, mais seguro. (Vamos combinar, por melhor que seja o puteiro, o risco de contrair uma DST com uma puta é milhões de vezes maior do que ao fazer sexo com a menina de família que você conheceu virgem)
Meu futuro namorado, quando você pensar em me trair com uma meretriz, fale comigo. Eu alugo uma peruca, coloco uma bota de cano alto e te encontro na esquina da Treze de Maio com o Teatro Guaíra. Podemos até combinar um esquema de pontos no cartão-fidelidade. Teremos uma noite maravilhosa, e de quebra eu ainda faturo uns trocadinhos. Segundo uns conhecidos do ramo, eu valho uns 100 reais.
Num acesso de sinceridade, o ex-namorado ex-perfeito contou que durante os três anos de namoro traiu a amada em diversas ocasiões. “Mas muitas vezes?”, perguntou nossa protagonista, em meio a lágrimas. “Sim”, disse o infeliz.
Incapaz de manter o pênis dentro da calça, ele tratou de traçar várias caipiras sempre que pôde. Mas até aí, compreensível. Ele é homem. E todo homem é idiota quando o assunto é sexo. O pior ainda estava por vir.
Depois de ouvir os relatos das ocasiões em que o digníssimo delicadamente enfeitou sua cabeça com um adereço nada fashion (um belo par de chifres), ela fez uma última pergunta. “Só essas vezes?”, questionou. Com medo da resposta, fechou os olhos um pouco antes de ouvir o que segundos depois a deixaria revoltada. “Não, teve também outra vez em que trepei com uma puta”, respondeu o safado.
“Mas eu não entendo”, choramingou ela. Bom, Amelie, eu também não entendo. Não entendo porque ele não pagou para você o dinheiro que gastou com a puta. Tão mais fácil, mais seguro. (Vamos combinar, por melhor que seja o puteiro, o risco de contrair uma DST com uma puta é milhões de vezes maior do que ao fazer sexo com a menina de família que você conheceu virgem)
Meu futuro namorado, quando você pensar em me trair com uma meretriz, fale comigo. Eu alugo uma peruca, coloco uma bota de cano alto e te encontro na esquina da Treze de Maio com o Teatro Guaíra. Podemos até combinar um esquema de pontos no cartão-fidelidade. Teremos uma noite maravilhosa, e de quebra eu ainda faturo uns trocadinhos. Segundo uns conhecidos do ramo, eu valho uns 100 reais.
sábado, 21 de junho de 2008
A Pagadora de Promessas
Na noite de ontem decidi pagar a única promessa que fiz durante toda a minha vida. (Ariana do segundo decanato, nunca deixo para amanhã uma coisa que posso fazer hoje e não costumo largar no ar compromissos futuros. Na minha vida, é hoje ou não é mais)
Feita depois de muitos copos de cerveja, foi selada há três anos e tem como testemunhas apenas dois colegas de faculdade. Um deles atendia pela alcunha de Galinho, mas hoje se chama Pedro Ernesto Vicente de Castro. O outro sumiu do mapa.
Era coisa simples. Até o final do curso, eu teria que dar um beijo em um terceiro colega, cujo nome prefiro manter em sigilo para evitar possíveis constrangimentos. Na época em que fiz a promessa, não fazia idéia de quando ou como poderia honrar meu compromisso. Tinha namorado, vergonha na cara e um incomum senso de responsabilidade que me impedia de fazer brincadeirinhas inofensivas, dessas que fazem a vida valer a pena.
Durante esses três anos, ninguém tocou no assunto. Eu por respeito ao meu antigo amado; ele por um motivo qualquer que definitivamente não vem ao caso. Mas ontem o assunto veio à tona, na hora mais inesperada.
Eu estava me servindo de vinho quando meus olhos foram obrigados a desvendar o rosto escondido atrás de uma nuvem de cabelos loiros. Era o terceiro, com a mesma cara da noite em que prometi o beijo. Ao olhar aquilo, veio à minha cabeça uma culpa quase que religiosa que me impeliu a honrar de uma vez por todas a promessa feita anos atrás.
Me aproximei, introduzi o assunto e tasquei um beijo na boca do dito cujo. Beijo meio chinfrim, admito. Não durou mais do que cinco segundos. Em todo caso, promessa paga.
Fui para casa com uma sensação de dever cumprido, com a certeza de que terminarei a minha faculdade sem nenhum arrependimento do tipo “arrependimento do que não fiz”. (Mesmo porque, fiz de tudo nesses quatro anos. Desde ficar acordada até às 5h escrevendo um ensaio sobre a Escola de Frankfurt até viajar sozinha com dez garotos malucos e maravilhosos)
Mas não adianta pagar uma promessa para alguém que não pode receber a oferenda acordada. O pagamento não tem valor nenhum, concorda? Não, você não concorda. Discorde agora mesmo, nem que seja apenas para me ajudar a provar que estou certa em não querer repetir o feito na próxima festa apenas porque o terceiro afirma não lembrar do acontecido.
Não que tenha sido ruim, longe disso. Até acredito que possa ser muito bacana dar um beijo de verdade nele. Mas convenhamos, não posso prorrogar algo desse tipo. Promessa é coisa séria! No fundo, importante não é pagar a promessa, mas ter certeza de que a pessoa recebeu o combinado. Por isso, nunca deixe de perguntar: promete que recebeu o pagamento da minha promessa?
Feita depois de muitos copos de cerveja, foi selada há três anos e tem como testemunhas apenas dois colegas de faculdade. Um deles atendia pela alcunha de Galinho, mas hoje se chama Pedro Ernesto Vicente de Castro. O outro sumiu do mapa.
Era coisa simples. Até o final do curso, eu teria que dar um beijo em um terceiro colega, cujo nome prefiro manter em sigilo para evitar possíveis constrangimentos. Na época em que fiz a promessa, não fazia idéia de quando ou como poderia honrar meu compromisso. Tinha namorado, vergonha na cara e um incomum senso de responsabilidade que me impedia de fazer brincadeirinhas inofensivas, dessas que fazem a vida valer a pena.
Durante esses três anos, ninguém tocou no assunto. Eu por respeito ao meu antigo amado; ele por um motivo qualquer que definitivamente não vem ao caso. Mas ontem o assunto veio à tona, na hora mais inesperada.
Eu estava me servindo de vinho quando meus olhos foram obrigados a desvendar o rosto escondido atrás de uma nuvem de cabelos loiros. Era o terceiro, com a mesma cara da noite em que prometi o beijo. Ao olhar aquilo, veio à minha cabeça uma culpa quase que religiosa que me impeliu a honrar de uma vez por todas a promessa feita anos atrás.
Me aproximei, introduzi o assunto e tasquei um beijo na boca do dito cujo. Beijo meio chinfrim, admito. Não durou mais do que cinco segundos. Em todo caso, promessa paga.
Fui para casa com uma sensação de dever cumprido, com a certeza de que terminarei a minha faculdade sem nenhum arrependimento do tipo “arrependimento do que não fiz”. (Mesmo porque, fiz de tudo nesses quatro anos. Desde ficar acordada até às 5h escrevendo um ensaio sobre a Escola de Frankfurt até viajar sozinha com dez garotos malucos e maravilhosos)
Mas não adianta pagar uma promessa para alguém que não pode receber a oferenda acordada. O pagamento não tem valor nenhum, concorda? Não, você não concorda. Discorde agora mesmo, nem que seja apenas para me ajudar a provar que estou certa em não querer repetir o feito na próxima festa apenas porque o terceiro afirma não lembrar do acontecido.
Não que tenha sido ruim, longe disso. Até acredito que possa ser muito bacana dar um beijo de verdade nele. Mas convenhamos, não posso prorrogar algo desse tipo. Promessa é coisa séria! No fundo, importante não é pagar a promessa, mas ter certeza de que a pessoa recebeu o combinado. Por isso, nunca deixe de perguntar: promete que recebeu o pagamento da minha promessa?
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